quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Adeus, velhinha...


Minha cliente mais fiel, começou e terminou a vida comendo a minha comida!  \o/


Nos conhecemos há mais de dezoito anos. 

Pelo champanhe, orelhas compridas, oito tetinhas, rabinho cortado, barriga cor de rosa, olhinhos de jabuticaba e laço vermelho; extremamente inteligente, já fez seu primeiro xixi no jornal e nunca destruiu nenhum móvel em casa. Em compensação, você mordeu a família toda, principalmente os pequenos, e demorou mais de quinze anos para aprender a controlar seu gênio... “Bonitinha, mas ordinária”, dizia minha madrinha! 



Nossa primeira noite foi no chão; lembra? Você chorava e eu me sentia culpada por estar tão feliz enquanto você estranhava a falta da sua família. Quando você encontrou uma fresta entre as minhas costas e o armário, e se acalmou, suspeitei que minha vida nunca mais seria a mesma... E aquela adolescente que odiava acordar cedo, passou a levantar da cama meia hora antes, e preparar cremogema para a cachorra boa de garfo, que não queria saber de ração. 


E, de repente, surgiu o terceiro elemento, que teve coragem para te conquistar, e passou anos pagando propina para poder entrar no quarto quando eu já estava dormindo. Mas você acabou se apaixonando completamente por ele, que teve uma paciência de pai na sua longa velhice... E ele ainda acabou bolando inúmeras gambiarras para te dar mais conforto: tapetes para você não escorregar, pratos na altura perfeita, canudo para seringa com remédio e até pinico. Esse cara te mimou mais do que eu, e te deu tanta água de coco...


Estou me despedindo de você há um ano, desde que você teve aquela convulsão assustadora, mas há quase duas semanas, quando ouvi a palavra metástase, senti raiva! Apesar de todo o cansaço, ainda não estava pronta para a sua morte... Mas até isso você me deu! O cansaço e a falta de paciência se foram quando me dei conta de que você realmente morreria nos próximos dias, e tive a oportunidade de curtir esse seu corpinho de pelúcia, de sentir o prazer de te ver raspar o prato, de brincar de tirar foto, de ficar com você no meu colo.


E nesses longos meses em que você não podia ficar sozinha, nossos amigos foram incríveis! Você participou de festas de réveillon e carnaval na casa do Lauro e da Rê, e não foram poucas as noitadas e os domingos preguiçosos na casa do Luiz. Até os gatos entenderam que você estava velhinha e deixaram de fazer caso com a sua perambulação pela casa! Fora a minha mãe, que quando ficava cuidando de você para que o Ebraim e eu pudéssemos sair, sempre estava no chão quando voltávamos para buscá-la; ela dizia que não queria que você se sentisse sozinha. 



E você nos deu amigos que não teríamos feito de outra forma: Ana, Camila, Fernanda e Ricardo; muito mais do que veterinários, vocês foram companheiros impagáveis!

 

Ah, Cherry, eu já tinha enterrado duas avós, um avô e vários tios, mas nunca tinha visto o ciclo completo de uma vida, e isso é algo que muda qualquer pessoa... Vi você com alguns dias, vi você ter filhotes, vi você no auge e acompanhei cada passo da sua velhice, que foi longa e muito boa. Adoro me lembrar de você correndo na grama, tomando sol, se roçando nas flores, pedindo comida, comendo banana, tomando suco de melancia, destruindo cocos, detonando bichinhos de borracha, estourando bexigas, devorando abacate, me atrapalhando na cozinha, escolhendo os meus biscoitosaos industrializados, sendo ciumenta, amorosa, companheira...  Obrigada pelas lições de determinação, perseverança, força de vontade e sabedoria para lidar com a velhice sem se render à ela, mas se adaptando, aceitando ajuda e contornando as limitações... Foi bom pra caralho, minha amiga; levo você comigo para todo o sempre. Com certeza, valeu a pena; não me arrependo de nada!

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